Miley Cyrus quis ler para mim algo que ela havia escrito. “Nas noites antes das entrevistas, eu tento meditar sobre meus objetivos e sobre o que eu quero falar sobre mim.” Nós estamos na sala de estar da casa que ela comprou aos 18 anos, localizada nas colinas acima do vale San Fernando. Em certo momento, o lugar tornou-se seu escritório, mas ela e Liam Hemsworth tiveram que se mudar de volta, após sua casa em Malibu pegar fogo no incêndio de Woolsey, em Novembro passado (eles se casaram, um mês depois, na casa de campo dela no Tennessee). Nas paredes existem fotos de Elvis e Dolly Parton. Temos uma vista para a piscina do lado de fora. Dois de seus cachorros se aconchegam no sofá entre nós, enquanto Cyrus apoia seu notebook no colo, limpa sua garganta e começa “Meu disco se chama “She Is Miley Cyrus (Ela é Miley Cyrus). ‘Ela’ não representa gênero. ‘Ela’ não é apenas uma mulher. ‘Ela’ não se refere à vagina. ‘Ela’ é poder. ‘Ela’ é uma força da natureza. ‘Ela’ pode ser qualquer coisa que você queira ser, portanto ela é tudo. ‘Ela’ é uma super mulher. ‘Ela’ é a CEO.”

Cyrus dá um pulo e começa a andar enquanto explica que “ela” é a versão mais confiante dela mesma e que “as mulheres estão recuperando o poder, com sua energia feroz feminina.” Seu sermão torna-se corrente enquanto ela transmite o pensamento de que as mulheres dão à vida, “que no caso é uma benção e uma maldição”. Ela lamenta a expectativa que isso coloca no sexo feminino: “Colocam a expectativa de que mantenhamos a população do planeta. E quando isso não faz parte do nosso plano ou propósito, existe tanto julgamento e raiva que eles tentam mudar as leis para te forçar a fazer isso — mesmo que você engravide de uma forma violenta. Se você não quer filhos, as pessoas sentem pena de você, como se você fosse uma vadi* fria e sem coração que não tem capacidade de amar.” Cyrus odeia a palavra ‘egoísta’. “Por que nós somos treinados a pensar que amar significa colocar você mesmo em segundo plano e aqueles que você ama em primeiro lugar? Se você se ama, você vem primeiro.” Sua cara séria dá lugar à seu característico sorriso iluminado e ela pula de volta para o sofá. “Então esse é meu jogo.” Eventualmente, nós acabamos entregando o sofá aos cachorros dela e terminamos sentadas de pernas cruzadas, sobre um tapete felpudo no chão.

Em um novo episódio de Black Mirror, Cyrus estrela como a fictícia pop star Ashley O, como era antigamente em seu papel de Hannah Montana. Ela também acabou de lançar o primeiro dos três EP’s que, juntos, formarão o álbum “She”, seu sétimo lançamento completo de estúdio.

A música é fluída no gênero e, como Cyrus, em todo lugar, porém intencionalmente. Ela tem pensado bastante sobre quem ela é e chegou à conclusão de que existem várias respostas. Aos 26 anos, Cyrus está fazendo um balanço sobre todas as diferentes fases de sua vida “super pública” e está pensando em como utilizar sua plataforma para aumentar a conscientização sobre as questões que ela mais se preocupa, como a mudança climática, direitos abortivos e desigualdade habitacional. No fundo, ela possui uma alma empática e vulnerável que quer ajudar a proteger outras almar vulneráveis.

ELLE: Parece que você andou pensando muito sobre a autonomia corporal da mulher.

Miley Cyrus: Sim, muito. Eu penso demais. Mas nesse momento da minha vida, eu me sinto mais poderosa do que nunca. Eu gosto da maneira que “ser sexualizada” faz eu me sentir, mas eu nunca faço minhas performances para homens. Eles não deveriam pensar que as decisões que eu tomo na minha carreira têm a ver com dar prazer à eles. Eu não penso que só porque um cara me acha gostosa, ele irá comprar meu álbum. Isso não me ajuda.

ELLE: E ainda existe a ideia de que se você é uma mulher, sua vida acaba quando você se casa.

Miley Cyrus: Eu acho que é muito confuso para as pessoas o fato de eu ser casada. Mas o meu relacionamento é único. E eu não sei se eu permitiria publicamente que as pessoas entendessem o que temos, porque é tão complexo, moderno e novo que eu não acredito que estamos em um momento que as pessoas entenderiam isso. Eu quero dizer que: as pessoas realmente acham que eu estou em casa, na porr* de um avental, cozinhando o jantar? Eu estou em um relacionamento hétero mas eu ainda sou muito atraída sexualmente por mulheres. As pessoas tornam-se vegetarianas por questões de saúde, mas bacon continua sendo bom pra caralh* e eu sei disso. Eu tomei uma decisão de parceiro. Essa é a pessoa que eu sinto que mais está ao meu lado. Eu definitivamente não me encaixo no estereótipo de função de esposa. Eu nem gosto dessa palavra.

Elle: Parece que seus pais têm uma boa relação. Isso ajuda.

Miley Cyrus: E eles sempre foram parceiros. Por isso gosto dessa palavra. “Marido e mulher” parece um cigarro dos anos 50 pra mim. Eu penso muito na música “Stand by your man” e como era uma das favoritas da minha mãe. Ela percebe o que ela diz? Tipo, ele vai ficar bêbado e trair você, e quando ele vir pra casa, você vai ficar com o seu homem porque no final do dia, ele te ama. Ele é só um homem. Ele só teve tanto que fazer sexo e esqueceu de seus sentimentos. Eu tenho uma nova música “Never be me”, e o refrão diz “se você está procurando por lealdade, nunca será eu. Se você está procurando por estabilidade, nunca será eu. Se você está procurando por alguém que será tudo que você precisa, nunca será eu.” Quando toquei ela a primeira vez para o produtor Mark Ronson, ele estava tipo “você não pode dizer isso. Você tem fãs homens e eles não vão entender o que você quer dizer”. E eu tipo “Mas você não diria nada se um homem viesse aqui e cantasse essa música.” E então, dois dias depois ele veio até mim e disse “você está totalmente certa. Entendo sua perspectiva.”

Elle: Isso assusta os homens.

Miley Cyrus: Joan Jett me contou sobre a primeira vez que ela cantou “I Love Rock ’n’ Roll,” e Clive Davis disse, “Não há espaço na indústria pra isso. Ninguém quer ver uma garota com o cabelo curto e uma guitarra.”
Quando homens héteros estão em cargo, muito disso é sobre “Eu quero foder isso?” Mas também é tipo mulheres gays querem transar com a Joan Jett. Muitas pessoas querem transar com a Joan Jett. Talvez você não. Quero dizer, mulheres héteros querem transar com a Joan Jett.

Elle: 100%

Miley Cyrus: Ela é tipo o Mick Jagger. Agora toda vez que alguém me fala não, eu to tipo “Bem querido, sabe o que? As pessoas disseram pra Joan Jett que eles não queriam “I Love Rock ‘n’ Roll’.” Ninguém deveria ter me contado essa história porque agora é meu argumento pra tudo.
Eu estou em um relacionamento hétero, mas ainda sou muito atraída por mulheres. As pessoas viram vegetarianas pela saúde, mas bacon ainda é muito bom, e eu sei disso.

Elle: Homens se recusam a aceitar um não o tempo todo, então a ideia de que você, uma poderosa mulher da indústria da música, deveria aceitar por ser uma mulher é louco.

Miley Cyrus: A nova música está definitivamente contando essa história. E também no meu episódio em Black Mirror. A personagem sou eu. Eles mexeram do jeito que sempre mexem, mas a indústria já está absurda. E muitas vezes já me senti como Ashley O. Ainda me sinto. Fazendo esse álbum me senti como Ashley O todo o tempo.

Elle: O criador de Black Mirror, Charlie Brooker, veio até você?

Miley Cyrus: Sim, eles me deram o script e estavam tipo “Nos avise se estiver interessada” E eu li e fiquei tipo “não é nem questão de interesse. Ninguém pode interpretar isso porque é a minha vida. Tipo, você pegou a minha vida.” Meu pai e eu acabamos de almoçar e estava explicando “Old Town Ride” para ele. Essa música é o melhor dos dois mundos porque parece incrível no rádio – gruda e deixa as pessoas unidas. Mas é um puta grito político.

Elle: Estamos num momento divisor de águas no país, obviamente, e o fato de que seu pai, Billy Ray, estava tipo “eu vou pegar essa música e legitimar como country.”

Miley Cyrus: Meu pai não gosta quando ninguém fala não. Ele ama os desfavorecidos e sempre foi assim. Ele preferiria fazer o que é certo e perder às vezes do que trair e vencer. E sempre fui assim também. Prefiro falhar do que trair. Tenho uma nova música chamada “Bad Karma”, mas não tem nada como karma. É apenas causa e efeito. Se não Donald Trump não seria presidente. Não acredito que todos entendam seu karma.

Elle: Certo – É confuso quando pessoas ruins sucedem.

Miley Cyrus: É apenas causa e efeito. Se você tem muito dinheiro e fez muita merda errada, você vai ganhar. Não significa que em algum momento alguém não vai te derrubar. Mas apenas não acredito que todo mundo tem o que merece. Conheço muitas pessoas pelo Happy Happie que moram na rua – artistas super talentosos que nunca tiveram um intervalo. Eu sei que karma não é real.

Elle: Eu sou de LA e nós sempre tivemos um grande problema com pessoas de rua aqui. O fato de que tantas pessoas passam por elas e a ignoram é insano para mim.

Miley Cyrus: Eu cresci trabalhando na KTLA, no Sunset, onde muitos moradores de rua estão. Quando volto para o meu lugar e vejo crianças usando as camisetas da Happy Hippie isso me deixa muito mais orgulhosa do que se tivesse 7 Grammy’s na parede aqui. Depois do incêndio de Woolsey, eu pensei sobre como ajudamos mais de 120 famílias que perderam suas casas. Servimos quase 1300 crianças em Hollywood todo ano desde 2014. E ano passado ajudamos 270 crianças a acharem casa e fornecemos 32.000 refeições. Isso não vai queimar. Isso me ajudou muito mais a desconectar das coisas.

ELLE: Incêndios colocam as coisas em perspectiva.

Miley Cyrus: Em desastres naturais, você não tem escolha. Você se rende.

ELLE: Nada é mais poderoso do que a natureza.

Miley Cyrus: Nada. E a natureza é feminina. Quando ela está brava, não mexa com ela. É assim que eu sinto que as mulheres estão agora. A Terra está brava. Nós viemos tratando ela mal. Nós estamos fazendo a mesma coisa com a Terra, que fazemos com as mulheres. Nós apenas tiramos e tiramos e esperamos que ela continue produzindo. Isso é exaustivo. Não dá para produzir. Estamos virando um planeta de merda e eu me recuso a entregar isso ao meu filho. Até eu sentir que meu filho irá viver em uma Terra que terá peixes na água, eu não trarei outra pessoa para lidar com isso.

Elle: Eu acho que é isso que todos os millennials estão lidando agora.

Miley Cyrus: Sim. Nós não queremos reproduzir porque sabemos que a Terra não pode ligar agora.

Elle: Você já sentiu que queria sair de Hannah Montana enquanto estava gravando?

Miley Cyrus: Sim, uma vez com 18 anos me senti ridícula. O minuto que fiz sexo eu estava tipo “não posso por essa peruca de novo”. Foi estranho. Eu só senti como…

Elle: Você cresceu.

Miley Cyrus: Sim, eu cresci.

Elle: E você estava usando a mesma roupa desde quando era criança.
Miley: Uma vez fui no backstage da Disney e o Peter Pan estava fumando cigarro. Eu fiquei tipo “essa sou eu. Esse é o tipo de sonho que quero alcançar”. Foi assim que todos se sentiram com o meu vídeo fumando, mas não sou um mascote da Disney. Sou uma pessoa.

Elle: Você acha que as pessoas não pensam em você como uma cantora suficiente?

Miley Cyrus: Eu acho que agora eu tenho o respeito que eu quero. Quando entro num espaço as pessoas podem pensar “Ok, ela mostra os peitos”, mas eles também pensam “mas ela tem uma voz incrível” e é tudo que me importa.

Elle: Esse é obviamente o legado da Dolly.

Miley Cyrus: Exatamente. É tipo “não deixe esse cabelo loiro te enganar. Eu que assino meus cheques”. Ela é uma mulher de negócios incrível.

Elle: O episódio de Black Mirror parece um exorcismo da Hannah Montana e tudo sobre ser uma artista criança.

Miley Cyrus: Sim, me senti assim. Não tenho mais vergonha disso. É muito legal quando você ouve que a Cardi B ouvia Hannah Montana no colégio. Isso me deixa feliz. O episódio faz um bom trabalho também em dizer que a música faz crianças nerds e sozinhas felizes. E que qualquer música faz com que uma pessoa sozinha se sinta menos sozinha está servindo um propósito. Isso também mostra uma visão realista de como ser famoso é um desafio de saúde mental que ninguém consegue entender. Eu tentei ir para a terapia algumas vezes e me trataram como se eu fosse todo mundo que senta no sofá. Eles ficavam “bem, você talvez se sinta paranoica porque está fumando maconha” e é tipo “Não, eu me sinto paranoica porque as pessoas estão colocando drones no meu quintal”. Uma vez eu estava sem camiseta e pelada em cima de um cavalo de mentira e apareceu um. E eu fiquei tipo, honestamente, eu não poderia ter pedido por um momento melhor. Pelo menos não estava sentada tomando café, sendo chata. Mas agora acho que é desinteressante para as pessoas me verem rebelde.

Elle: Sim. Bem, é bem comum no começos dos vinte anos ter a fase de “vou testar meus limites e ver várias identidades para ver como é”.

Elle: Acho que ainda é o que estou fazendo – tentando identidades e vendo o que encaixa. O incêndio me fez fugir da zona de conforto, encontrar um novo lugar para chamar de casa e dizer “eu colecionei tudo isso, todos os anos, mas não me faz quem eu sou. Não pertence a mim.”

Tradução: Débora Brotto e Giovanna BianchiEquipe Miley Cyrus Brasil