Entrevistas

Confira a entrevista traduzida de Miley Cyrus para a Variety Magazine

By outubro 11, 2016 No Comments

bvariteyNa última temporada do “The Voice”, Miley Cyrus reinventou-se de uma pop star de twerk à uma mãe mentora. “Eu choro o tempo todo,” disse Cyrus sobre ter de cortar membros do seu time durante as rodadas de eliminação do programa. Nos bastidores, Miley distribui cópias do livro de autoajuda, “The Untethred Soul”, para seus participantes, tentando acalmá-los antes das apresentações ao vivo. Nas câmeras, ela mostra um estilo eclético – como uma roupa coberta de flores de papel – com o intuito de neutralizar quaisquer nervosismo de última hora.

“Eu acho que isso faz os concorrentes sentirem-se mais seguros,” diz Cyrus sobre suas roupas coloridas. “Quando eu viro, as pessoas riem e sentem-se alegres. Eu acho que eles podem ver esse meu lado.”

Por vários anos, Cyrus tinha uma imagem pública diferente. “As pessoas me viam como selvagem, e literalmente tudo que eu faço é estar obcecado por yoga, amo caminhar, e estou sempre lendo. Minha vida é muito positiva. Vendo de fora, as pessoas pensam que estou festejando com rappers. Isso foi no meu princípio.”

É difícil manter uma cara séria quando Cyrus fala isso – ela tem apenas 23 anos. E aí, ela está na televisão desde a escola primária. Aos 11, Cyrus foi parte do elenco da série do Disney Channel, “Hannah Montana”, o que a fez ser a Hayley Mills de sua geração. O papel trouxe intensa investigação dos tablóides, especialmente enquanto ela tentava crescer. “Eu tive uma linha de roupas na Walmart e fui enxotada, porque eles falaram que eu deveria escolher entre maconha ou Walmart,” Cyrus diz. “E você vê o que eu fiz – escolhi maconha.”

Em 2013, o circo da mídia Miley chegou ao auge nos VMAs, onde ela dançava ao lado de uma fileira de ursinhos de pelúcia. Ela insiste que o momento foi um mal-entendido. “Aquilo foi uma piada,” diz. Cyrus teve uma mudança total desde então. O novo caminho de sua carreira gira em torno de sua nova fundação: Happy Hippie, dedicada a apoiar jovens desabrigados LGBTQ em risco. “Só estou fazendo o ‘The Voice’ porque ajuda a Happy Hippie,” fala sobre ter se envolvido como o programa de TV para promover sua causa.

Cyrus foi protagonista de alguns filmes como “A Última Música” e “Bolt”, mas ela é contrária a fazer filmes agora. “Sei que atuar é chato,” diz. “As pessoas são muito bem pagas pelo que fazem.” Ela quase recusou participar da série de Woody Allen, “Crisis in Six Scenes”, mas foi eventualmente convencida pelo papel – uma ativista dos anos 60.

Durante um almoço vegano em Los Angeles, Cyrus falou sobre o que a motiva, lembrou como lutou com sua identidade pansexual quando adolescente (atualmente, ela está namorando Liam Hemsworth) e compartilhou seus pensamentos sobre a eleição.

Você foi apresentadora do talk show de Ellen DeGenere’s.

Eu tive que apresentar Sarah Jessica Parker, e ela me perguntou se eu tinha algum amigo que votaria em Donald Trump. Eu fiquei tipo, “Você acha que eu teria algum amigo que votaria em Donald Trump? Por favor! Com quem você acha que eu saio?”

O país é muito polarizado.

Isso não é uma piada. Mas eu acho, de verdade, que existe alguma coisa entre as Kardashians e Trump. As Kardashians são melhores que Trump, porque elas não estão tentando dominar o país. Elas só estão tentando ser famosas, e tudo bem. Nós somos obcecados por celebridades. Quando Trump começou isso, eu comecei a rir. Eu pensei que não chegaria a lugar algum; não tem jeito dele ser o candidato.

Você sempre apoiou a Hillary Clinton?

Eu sempre apoiei muito Bernie.

O que você diz aos apoiadores de Bernie que ainda não votarão em Hillary?

Isso é loucura e você está fora de si. Está literalmente me irritando mais do que qualquer coisa. Se você pensa em considerar Donald Trump, você nunca entendeu Bernie direito.

De onde vem o seu senso de ativismo?

Eu acho que me senti muito burra. Eu senti que o que eu estava fazendo não tinha valor, porque ser uma popstar era realmente idiota quando as pessoas estão desabrigadas e famintas. Em 2013, quando fiz o VMA, isso tornou-se a maior história do mundo. Eu nunca esperei que isso fosse acontecer. Eu apenas fiz meu trabalho. Eu fui lá vestida como um urso de pelúcia, dancei com ursos de pelúcia, nunca passou pela minha cabeça que o mundo pensaria que aquilo fosse algo ruim.

Aquela experiência te fez sentir-se mal sobre si mesma?

Me fez pensar que eu abandonaria uma vida patética – como se eu tivesse que escolher um outro trabalho. Eu não entendi o meu poder naquele ponto. As pessoas ouvem por conta do que eu sou, então, em vez de ficar envergonhada, eu deveria falar: “Vão se ferrar, eu tinha o microfone.”

Como você se envolveu com a comunidade LGBTQ?

Minha vida inteira, eu não entendi meu próprio gênero e minha própria sexualidade. Eu sempre odiei a palavra “bissexual,” porque isso me coloca dentro de uma caixa. Eu nunca penso em alguém sendo um menino ou uma menina. Também, meus mamilos e tudo nunca foram sexualizados por mim. Meus olhos começaram a abrir na quinta ou sexta série. Minha primeira relação foi com uma menina. Eu cresci numa família sulista extremamente religiosa. O universo sempre me deu o poder de saber que eu ficaria bem. Mesmo naquele tempo, quando meus pais não entendiam, sempre senti que um dia me entenderiam.

Você falou com eles sobre como se sentiu?

Sim. Minha mãe é como uma garota roqueira dos anos 80 – cabelos loiros longos, peitos grandes. Ela ama ser uma garota. Eu nunca me senti assim. Eu conheço algumas garotas que adoram fazer as unhas. Eu odiava isso. Minhas unhas parecem horríveis. Eu não faço as sobrancelhas. Eu nunca amei ser uma garota. E aí, ser um garoto nunca soou divertido pra mim. Eu acho que o alfabeto LGBTQ poderia continuar para sempre. Mas deveria ter um “P” ali, para “Pansexual”.

Quando você se descobriu pansexual?

Eu acho que quando descobri o que é isso. Eu fui ao centro LGBTQ aqui em Los Angeles e comecei a ouvir as histórias. Eu vi uma pessoa em particular que não se identificava nem como masculino nem como feminino. Olhando para eles, eram: bonitos e sexy e fortes, mas vulneráveis e femininos, mas masculinos. E eu me identifiquei com aquela pessoa mais do que qualquer outra na minha vida. Mesmo que eu pareça bem diferente, as pessoas podem não me ver tão neutra quanto eu me sinto. Mas eu me sinto muito neutra. Eu acho que aquela foi a primeira pessoa com gênero neutro que eu conheci. Uma vez que eu entendi mais meu gênero, que não foi atribuído, aí eu entendi mais minha sexualidade. Eu fiquei tipo, “Oh – é por isso que não me sinto hétero nem gay. É porque não sou nenhum dos dois.”

Por que você acha que a desigualdade ainda existe para as mulheres em Hollywood?

Muito disso poderia ser mudado se tivéssemos uma presidente mulher. Isso nos daria um impulso no subconsciente. Eu acho que as pessoas teriam que perceber que estão muito antiquadas. Por exemplo, tem um programa chamado “Supergirl”.  Acho que ter um programa com um gênero ligado a ele é muito estranho. Um, é uma mulher naquele letreiro – não é uma garotinha. Dois, e se você for um menininho que quer tanto ser uma menina que isso te faz mal? Eu acho que ter um título como “Supergirl” não dá o poder que as pessoas pensam dar.

De onde vem o seu poder?

Meu empoderamento vem do sentimento de ter um propósito agora. Na minha lápide, eu não quero a letra de “Wrecking Ball”. Quero que seja algo melhor. Sou a única Disney star que se declarou a favor de lésbicas e gays, antes de ser okay falar isso.

Você teve problemas por isso?

Na verdade, não, porque muitos dos caras que trabalham para a Disney são gays, então eles ficaram muito felizes por terem alguém em seu lado.

Você é mentora no “The Voice”. Você acha que fará mais temporadas?

Não sei. Eu definitivamente gostaria de fazer se isso fizesse sentido. Ainda não fiz os shows ao vivo ainda. Quero sentir como é. Deve ter muito mais pressão.

Você não gosta de TV ao vivo?

Eu não me importo com a TV ao vivo como me importo que a América vote quando falamos em “The Voice” e votou em Donald Trump para tornar-se um candidato. Eu realmente disse ao meu time que eles podem ser o Bernie Sanders do “The Voice”.

Com qual frequência você chora no programa?

Quando eu tenho que eliminá-los. É um pesadelo. Para uma pessoa não conflituosa, é o pior trabalho do mundo.

Como você entrou para o elenco da série de Woody Allen? Você era fã do trabalho dele?

Eu sou. Eu me mudei e a única coisa que trouxe para minha nova casa foi um quadro de Woody Allen. Na primeira noite que dormi na minha casa nova, meu empresário me ligou e disse “Woody quer que você vá para Nova York.” Eu amei trabalhar com ele. Você faz, tipo, dois takes. Ele só quer ir para casa e jantar com sua esposa. Em uma noite, eram 5:30, e o operador de câmera queria fazer outro take. Ele falou, “Não posso dedicar minha vida inteira a fazer filmes.”

Muitas pessoas estão discutindo se é possível separar a arte do artista. Você estava ciente sobre as alegações de abuso feitas por Dylan Farrow contra seu pai e, se sim, isso te fez pensar?

Eu vivo uma vida similar a do Woody – vivo uma vida pública. Até que eu conheça alguém e sua história, eu realmente não jugo ninguém. É isso que eu penso sobre o assunto. Partindo do jeito que eu o vi com sua família, eu nunca o vi ser nada além de uma pessoa incrível e um ótimo pai. As pessoas podem cair em cima de mim por falar isso. Tenho certeza de que foi um momento difícil para a família. Minha família passou por momentos difíceis, e acho que o jeito que todos sofrem é diferente.

O que seus pais pensam sobre seu trabalho agora?

No “The Voice”, uma adolescente começou a chorar quando foi embora porque eu fui a razão pela qual ela se assumiu. Minha mãe começou a chorar. Ela ficou tipo, “Me desculpe pelo jeito que eu agi quando você era dessa idade e se assumiu.” Ela nunca me entendeu até ver aquela garota que não podia ser ela mesma. Foi muito legal.

Fonte | Tradução: Lucas Gomes – Equipe MCBR