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Confira a entrevista de Miley Cyrus para a ELLE UK + vídeo legendado dos bastidores

By setembro 4, 2015 No Comments

Para comemorar o nosso 30º aniversário, nós convidamos Miley Cyrus, uma verdadeira ativista social da geração do Instagram, para dar suas opiniões sobre questões de sexualidade, gênero e amor. Miley está coberta de tinta enquanto dirige pelo Sunset Boulevard. São 19:00hs de um Sábado de Julho. As palmeiras da calçada dão aquele clima de Los Angeles, e eu estou sentada no banco do passageiro de seu Maserati com os vidros abertos. Meus pés estão envoltos por embalagens de comida e o que me parece ser um macacão do tipo onesie. O banco de trás está mais abarrotado de conjuntos de roupa do que a minha mala para a viagem da Califórnia. Miley, ainda coberta de tinta do seu ensaio fotográfico, está me deixando ouvir um pouco do seu novo álbum através do som do carro, enquanto canta a sua música “BB Talking” como se estivesse num palco do Madison Square Garden. “Você achou engraçado?“, pergunta ela. “Quero fazer as pessoas rirem“. Eu digo que é engraçado enquanto ouço a introdução da música que ele descreve como o sexo deve ser. Na verdade, estou rindo mais pela situação surreal do que pela própria música. Parando no semáforo, as pessoas dos carros ao lado começam a gritá-la. Miley parece não ligar, como se fosse algo comum. Na realidade, ela é a pessoa de 22 anos mais famosa do mundo. Eu, como não estou acostumada com essa situação, me encontro dando um tchauzinho. Eu espero que eles pensem que eu sou a nova Stella Maxwell, a modelo da Victoria’s Secret que Miley estava, supostamente, namorando, mas isso é assunto para outra hora.

Miley nasceu destinada para a fama. Nascida em Nashville no ano de 1992, seu pai é Billy Ray Cyrus, o cantor do famoso clássico “Achy Breaky Heart” e sua mãe e Tish Cyrus, produtora e atriz. Aos 14 anos, Miley Cyrus estava no Disney Channel como Hannah Montana e se tornou a queridinha dos Estados Unidos. Foi um choque para os fãs mais novos quando, em 2013, ela perdeu a cara de queridinha, cortou o cabelo e começou a fazer o twerk, se tornando a pessoa mais pesquisada na internet nesse ano. Ela já vendeu mais de 30 milhões de álbuns ao redor do mundo, tem 26 milhões de seguidores no Instagram, 21 milhões no Twitter e um valor de 106 milhões de dólares em sua conta bancária. Quando nos conhecemos, haviam acabado de anunciar que ela seria a apresentadora do VMAs e ela me contou que planejava lançar um álbum surpresa, que nem a Beyoncé. Então, agora lendo a entrevista, o mundo já sabe o que ela fez. “Nada do que estamos planejando para o VMAs parece fora de controle, mas eu tenho certeza que as pessoas vão reclamar de algo“. Mas vamos deixar isso para outra hora também porque o que queremos para a capa da ELLE UK no especial de 30 anos é seu papel como transformadora social e sua voz influente capaz de tornar o mundo um lugar mais aceitável de se viver.

“Miley tem o ouvido da juventude, é ótimo que ela tenha escolhido fazer algo positivo”.

Da última vez em que ela foi entrevistada pela ELLE, em Junho de 2013, os planos futuros da estrela não ficaram muito claros. Ela iria sair do eixo como vários famosos ou iria fazer algo certinho, seguindo o roteiro e lançar músicas chicletes? Miley não escolheu nenhuma das opções – ela decidiu usar sua influência para algo mais importante. “Sinto que sou a mulher mais sortuda do mundo, mas ao mesmo tempo sinto que ser uma estrela do pop é uma coisa idiota. Me sinto envergonhada quando me lembro do VMAs 2013, que recebi uma boa grande para balançar a bunda numa fantasia de urso“, diz ela. “Eu não deveria valer tanto enquanto existem pessoas abandonadas nas ruas. Isso não tem fundamento. Mas eu sou muito influente sendo uma pop star, então é importante que eu use essa influência“. E então ela começou a filantropia, com a Happy Hippie Foundation destinada aos jovens sem-teto e à comunidade LGBT. Um recente projeto entre a fundação e o Instagram envolveu Miley fotografando e divulgando fotos de transgêneros e pessoas com gêneros diferentes para promover a tolerância e a liberdade de expressão.

A mensagem de 2015 foi #LoveWins, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos transitou em julgado a permissão para casamento homossexual. Agora uma nova era da aceitação sexual está começando, e temos muito o que agradecer à Miley. “Foi um dos dias mais felizes da minha vida“, diz ela sobre a legalização do casamento gay. “Eu saí para tomar café e muitas pessoas vieram me agradecer, como se eu tivesse algo a ver com a decisão da Suprema Corte“. Paramos na SoHo House e sentamos num sofá do fundo do restaurante que tem a vista para a cidade. Ela pede uma margarita para ela, uma comida mexicana para dividirmos e eu escolhi uma bebida que ela me sugeriu. Ela fala com todos os funcionários do restaurante de uma maneira bem educada. “Um cara me disse que eu trato todo mundo igual. Foi o melhor elogio de todos, muito melhor do que um elogio sobre a minha aparência“. Eu me pergunto se ela vem aqui frequentemente. Nossa, mas isso não é um encontro. Ela se adequou ao restaurante há alguns meses e gosta bastante de lá, pois há uma regra de que as pessoas não podem pedir fotos enquanto ela está comendo. Sua mãe detesta que os jantares sejam interrompidos. Tish deu uma passada no final do nosso photoshoot, e com estilo e sem causar tumulto, ela olhou as fotos e gritou com seu sotaque sensual: “Essas são as melhores fotos que você já fez na sua vida!” e Miley responde “Você fala isso toda vez, mãe“. A relação das duas parece bem normal. Tish me contou que gosta do cabelo da Miley nesse ponto atual.

Mais cedo nesse dia, Miley leu um artigo sobre ela no “Charisma News” – uma revista cristã extrema – enquanto estava na cadeira de maquiagem. O título dizia “Miley fez algo vergonhoso no Instagram – um complemento da sua performance no VMAs“. “Billy Ray Cyrus, o astro do country e pai de uma jovem sem noção,” – lê ela em voz alta enquanto faz pausas para dar gargalhadas – “provavelmente sentiu enjoo ao assistir sua filha no palco“. Em primeira instância, haters online e fanáticos religiosos não conseguem incomodá-la. “Quando eu escuto criticismo, eu ignoro. Costuma ser hilário“, diz ela claramente decepcionada com a religião em que foi criada. “Meus pais têm orgulho do meu trabalho. Meu pai não liga para o que eu faço no palco – ele entende o meu eu ambíguo. Na época dele, ele estaria usando blusa cavada e tênis no Grammy enquanto todos os outros artistas country estariam usando botas típicas de cowboy. Meus pais aprenderam muito sobre a comunidade LGBT comigo. Eles têm 50 anos e são do Sul, então eu não espero que eles entendam tudo sobre o assunto, mas eu peço que eles aceitem por mim“.

“Ser engraçado, legal e confiante – são essas coisas que farão você se sentir bonito”.

As coisas supostamente vergonhosas que Miley tem feito são talvez as armas que as pessoas usam para desviar o seu projeto político: a língua e o strip-tease nas redes sociais. Mas você está errado em julgar essa mulher de acordo com o seu Instagram – tem muito mais além disso. Finalmente, parece que Miley está ciente do que ela está fazendo, e como conseguir atenção. “Você coloca os seus peitos para fora, e todos eles olham, então você pode aproveitar para dizer algo importante e fazer todo mundo ouvir“. O que ela talvez não percebe é que o seu jeito de atrair atenção, talvez, esteja dificultando o seu potencial de ser ouvida e levada a sério. Mas para Miley, ela está apenas sendo Miley, e não entende como isso causa impacto sobre sua mensagem ser ouvida. Talvez ela tenha um objetivo. Ser feliz com seu corpo está inspirando um movimento inteiro. Nós falamos sobre o tamanho dos seus pelos das axilas e ela falou sobre como isso inspirou várias mulheres a deixarem seus pelos crescerem também e compartilhar isso nas redes sociais. “Eu só tirei aquilo porque fiquei bêbada e encontrei um kit de depilação. Eu sinto falta“.

Uma foto que atraiu atenção de forma extrema foi a que ela postou há três semanas usando uma camiseta que dizia “Gêneros Não Existem Mais“, e recebeu mais de 550 mil curtidas, 100 mil a mais do que a média. Eu peço para ela explicar como é o seu mundo sem gêneros. “Quando um bebê nasce, está claro – essa é menina, esse é menino. Mas, se tornando adulto, você pode escolher quem você é. Nós simplesmente nascemos humanos“, diz ela, jamais desviando o olhar, exceto para mergulhar a batata frita no molho. “Eu sou feminista – ainda existem desigualdades contra as quais lutar – mas eu não me refiro ao que as pessoas fizeram todos acreditarem. Tipo, os homens praticam esportes e comem churrasco, enquanto as mulheres se sentam com seus vestidos e fazem suas unhas. Eu sou mais macho do que muitos homens, mas isso não faz de mim um garoto. E outro dia eu usei um vestido rosa porque achei fofo. Eu posso fazer um cupcake e depois praticar esporte“. Ela acha chato todos serem tão obcecados com o que as pessoas têm dentro das calças. “Todo mundo pergunta se Caintly Jenner tem um pênis, mas ninguém se importava com o que Bruce Jenner tinha atrás das calças“. E ela continua expondo sua ira sobre as pessoas tendo que passar por cirurgia para poder trocar de gênero ou passaporte, em se tratando dos termos legais.

Sobre a própria sexualidade, ela me diz: “Eu sou bem aberta quanto a isso – sou pansexual“. Para ser honesta, eu tive que ir ao Google depois pesquisar o significado, e descobri que é alguém aberto a todas as opções e orientações sexuais. Mas Miley me diz repetidamente que não está procurando nenhum tipo de relacionamento no momento. “Tenho 22 anos, vou aos encontros, mas mudo meu estilo a cada duas semanas, e isso sem levar em conta com quem estou“. Quando chegou no estúdio aquele dia, ela estava com uma ressaca forte do que pareceu uma noitada pesada. Ela mostrou para todo mundo no estúdio – e para todos os seus seguidores do Instagram – uma tatuagem não-permanente de uma bandeira australiana em sua bunda, e disse que foi feita pelo cara com quem ela estava na noite anterior.

Eu me pergunto o que aconteceu entre ela e Stella. “Stella e incrível, mas assim que você sai com alguém, você se depara rotulada em um relacionamento. E comigo é tipo, você não pode deduzir que todo mundo com quem eu me sento para jantar é meu namorado. Se fosse assim, estaríamos em um encontro agora“. Eu faço a melhor cara de ofendida que eu consigo, e espero que ela não perceba que essa era a intenção. “Então você se separa e de repente a notícia está por todos os lados. E é tipo “Eles seguiram caminhos diferentes”, mas na verdade costuma estar tudo bem. Liam e eu ainda somos muito próximos e nos amamos, mas todos fazem parecer que há uma negatividade. Parece uma atitude muito sábia amar e se envolver. Eu me sinto muito velha. Eu nunca vou querer que pensem que eu sou melhor ou mais inteligente que as outras pessoas de 22 anos, mas todos os meus amigos completaram 30 anos e eu cresci assistindo a um seriado de TV em que todo mundo era adulto. Acho que foi esse o motivo de eu ter mergulhado em meu relacionamento com Liam – era legal estar com alguém que tinha quase a mesma idade que eu“.

Sua confiança é impressionante. Eu me pergunto se ela tem preocupações. “Eu sofri muita depressão e ansiedade na minha vida e tudo era porque eu me importante extremamente com a minha aparência. Minha mãe sempre foi magnífica, e minha avó também, então eu fui acostumada assim. Hoje em dia eu realmente tento não me importar. Claro que chegam dias em que voltamos ao fundo do poço, mas eu não fico presa a isso. Se você é engraçado, legal e confiante, isso te fará bonito“. Um brinde a essa frase. Peço outro vinho e percebo que Miley nem tocou em sua bebida. Talvez seja a ressaca, ou talvez ela não seja tão selvagem como demonstra. Pergunto sobre o seu próximo álbum. Miley disse que o compôs durante a Bangerz Tour, momento em que se sentiu sozinha, principalmente com o falecimento de seu cão. Por isso, ela quis nomear o álbum de “Miley Cyrus & Her Dead Petz“. Ela gravou em um estúdio feito em sua casa com a ajuda de Wayne Coyne, dos Flaming Lips. O som é menos pop que “We Can’t Stop” e “Wrecking Ball“, mas é mais forte e selvagem. “Sim, muitas músicas falam sobre sexo e maconha, mas também falam sobre coisas mais importantes que isso“, diz Miley. “É diferente de Shake It Off. Só estou usando Taylor Swift como exemplo porque ela é a pessoa mais famosa do mundo no momento, mas fazendo músicas assim, você está sendo imparcial e todos podem gostar de sua música. Mas desse meu trabalho eu creio que apenas algumas pessoas vão gostar. Tem um estilo mais próprio. Tenho 22 anos, moro em Los Angeles, todos os meus amigos também e pensamos assim“. Ela diz que pretende lançar o álbum de graça. “Se você quiser baixá-lo, pode baixá-lo. Se você não gostar, pode deletá-lo. Isso diminui o stress e competição. Poderia chegar em primeiro lugar, mas não gostaria de pensar que falhei caso não ocorresse“. Eu acho que ela está nervosa sobre a reação que essa música irá causar, mas ela não demonstra.

Eu pergunto se, caso dê algo errado no mundo da música, ela não tem planos políticos. Espero que ela responda sim. “Não, eu não poderia ser o Obama. Há muitos idiotas na política e eu sou extremamente explosiva. Além disso, eu precisaria ser mais velha e experiente. Eu precisaria ficar relendo os papéis. O problema com a política é que todos são homens velhos. Eu não quero que eles me ditem ordens porque homens são bem desorganizados. Você precisa de uma mulher organizando as coisas“, ela diz com um sorriso, e é claro que ela torce por Hillary Clinton. “Estou ansiosa porque acredito que a mudança está chegando. Se podemos ir de um presidente negro para uma presidente, nós estaremos finalmente vivendo na terra da liberdade. Uma presidente será algo inspirador para as mulheres“. Superado o assunto em questão, dois amigos de Miley se sentam na mesa. Diane Martel e um homem jovem, todos falando sobre a nova música de Miley. Eu peço mais uma reposição do meu drink e a estrela continua sã.

Depois de algum tempo, Miley se retira e paga a conta, dizendo que precisa ir dar comida para sua porca. Na verdade eu penso que ela está indo se encontrar com o australiano da noite anterior. Se essa noite com Miley tivesse sido um encontro, eu agora estaria me perguntando quando eu poderia lhe mandar mensagens. No geral, Miley é uma junção de várias coisas que se contradizem – motorista de um Maserati que ajuda os sem-teto e feminista, mas ela é absolutamente a definição de confiança. Ela levanta um dedo de espuma para os rótulos e se recusa a se definir sexualmente. “Eu quero que as pessoas vivam suas vidas, com tudo o que amam, mas elas precisam fazer algo que não seja apenas para elas próprias“. Miley é um grande exemplo e o mundo seria um lugar melhor se todos a seguissem.