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Miley Cyrus entrevista Mike Will Made-It para a V Magazine

By março 10, 2015 No Comments

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Matéria por: Miley Cyrus
Fonte: VMagazine
Tradução: Matheus Araújo e Henrique Silveira — Miley Cyrus Brasil

Mike WiLL Made-It é nosso produtor de hip-hop número um e um dos mais jovens, também. Como a princesa do pop, Miley Cyrus, explica, quando ela tornou o som dele mainstream, foi uma combinação que só poderia ter sido feita na América.

Mike Will teve uma visão sobre mim, em primeiro lugar, antes que qualquer pessoa soubesse que eu passaria por essa revolução. Ele teve isso antes mesmo de saber que eu estava trabalhando em músicas novas. Ele dizia: “Fiquem de olho na Miley Cyrus. Eu não sei se ela está fazendo música, mas ela vai querer cantar quando ouvir essa música que estou fazendo!” Não há uma grande diferença entre a cultura urban e a cultura da música country. As pessoas não percebem que cowboys e gangsters são a mesma coisa. Tenho conversado com Mike Will sobre crescer cercada por Johnny Cash e Waylon Jennings, e ele simplesmente disse: “Eles são gângsters.”

Em 2013, eu fiz uma performance no Video Music Awards da MTV. Mike estava me inspirando muito naquele ano. Para mim, o hip-hop era semelhante à forma como a minha mãe descrevia o cenário do rock quando ela era jovem. O hip-hop se tornou o novo punk, porque era o lugar onde podiam explorar a música com rebeldia. A ideia de inovadores contra imitadores é algo que ele e eu lutamos contra. Mike tem um som próprio agora, e é difícil ir à uma boate sem ouvir este som. A mesma coisa que acontece comigo, espero que você leve isso como um elogio, acontece com ele: as pessoas tentam imitar o som de Mike, e nem sempre fica tão bom. Algumas pessoas podem não compreender, mas há uma sofisticação no som de Mike.

As pessoas ficam chocadas com o fato de que ele tem 24 anos. É a mesma coisa quando se trata de mim… as pessoas não conseguem acreditar, quando falam comigo, que tenho apenas 22. É o estilo de vida e a ambição. A razão pela qual as pessoas sempre me escutam em minhas reuniões de negócios é porque ninguém sabe o que os jovens querem mais do que os próprios jovens. Ele é como eu porque, quando queremos algo, não aceitamos um não como resposta. Quando você tem essa direção, as pessoas esquecem o quão jovem você é. Ele é mais do que um produtor. Acredito que ele está construindo um império. Quando você olha para o que 50 Cent fez com Vitaminwater ou o que Dre fez com Beats, percebe que tudo começou com a música, e Mike sabe como construir a si mesmo. Como, por exemplo, a Dolly Parton. É engraçado falar dela, porque Dolly é uma estrela do country com peitos grandes e glitter, mas por dentro ela é uma mulher de negócios. Eu sou uma cantora, mas há algum tempo eu estava com menos credibilidade do que tenho agora, embora muita gente aceitasse aquilo, porque esta é a América, e eu sei que Mike pode fazer muito mais do que já faz dentro da arte, da moda e dos negócios. Ele tem apenas 24 anos, então ele tem muito tempo ainda para fazer o quer.

É claro que temos diferenças. Eu nunca tive problemas com meus pais me colocando dentro de um avião para Los Angeles e depois de volta para casa, para que eu me tornasse quem eu sou hoje, mas Mike teve que fazer tudo sozinho, sendo oriundo de um porão em Atlanta. Ele não nasceu para ficar lá e chegou aqui estritamente na música, o que é mais do que muitas pessoas podem ter conseguido. Foi assim que ele virou o “Mike Will Made-It.” Ele realmente chegou aqui sozinho e isso é a coisa mais respeitável. Eu amo quando as pessoas são subestimadas. Ele começou a fazer música aos 14 anos e trabalhava como empresário de três adolescentes em Atlanta. Ele sempre foi muito maduro para sua idade e muito adiantado. Ele correu riscos e ficou até mais tarde na escola, e hoje em dia contempla como sua vida mudou.

Miley Cyrus: Como você começou a fazer música?
Mike Will: Eu comecei a fazer umas batidas aos 14 anos, em um grupo com outros três amigos. Íamos ao estúdio todo fim de semana. A escola inteira comprava todos os CDs que eu fazia com meus manos. Nós os vendíamos por cinco dólares cada. No final, cada um terminava com uns cem dólares. Enfim, esse grupo não deu certo e eu fiquei sozinho. Foi quando eu conheci Gucci Mane, eu devia ter uns 15 ou 16 anos. Ele ouviu um monte de músicas que eu estava fazendo e ele começou a fazer rap em uma delas. Ele tentou comprar esta por mil dólares. Meu pai geralmente me deixava no estúdio e eu ficava lá sozinho e, nesse dia, Gucci estava lá também. Ele me puxou para um cômodo e me perguntou se eu era o moleque que fez as batidas. Eu disse: “Cara, você vai ter que falar com o meu empresário!” Ele sabia que eu não tinha nenhum empresário. Não tinha absolutamente nada. Meu contrato com Gucci acabou quando ele foi preso, mas Waka Flocka Flame e eu nos conhecemos nessa época e ele é muito legal. Mas naquela época, Waka ainda nem sequer era um rapper. Tinhamos acabado de nos conhecer na boate. Estávamos prestes a começar uma briga, mas de alguma forma tudo acabou bem. Começamos a conversar e ele estava me perguntando o que eu faço e eu disse: “Eu faço música. Eu faço batidas.” Foi quando ele disse: “Meu primo é Gucci Mane.” Eu disse: “Porra, Gucci Mane!? Ele é meu mano.” Então Waka e eu trocamos nossos números e criamos uma amizade e, em seguida, quando Gucci saiu da prisão ele nos ligou também. Waka e eu estávamos saindo todos os dias. Eu dormia no sofá de sua mãe, ele também dormia no sofá da minha mãe. Ele chegou a se oferecer para ser meu guarda de segurança. Sua mãe era empresária de gângsters, e seu tio foi empresário do rapper Nas e todos aqueles caras de Nova York. Então, Waka só queria ter certeza que meu negócio era seguir todo o caminho em linha reta. Na época, Gucci começou a dizer o nome de Waka em seus raps, e a me divulgar. Então eu disse a Waka: “Ei, o Gucci está tornando-nos um nome, cara! Você tem que começar a fazer rap!” Antes que eu percebesse, ele se tornou um rapper do dia para a noite. Eu ainda estava fazendo batidas para Gucci, quando o som underground decolou. Mas eu realmente não consegui meu auge através de Gucci, eu consegui por meio dele. Depois de tudo o que fizemos ter sido lançado, eu o trouxe outro CD cheio de batidas e ele me disse: “Você não precisa mais trazer pra mim batidas.” Ele me disse que eu tinha que levar o meu som para o próximo nível, e que ele estava tentando para ir para o próximo nível. Eu não havia entendido. Eu fiquei com muito ódio, porque foi foda fazer essas batidas e ele rejeitou. Depois disso, ele começou a ter mais visibilidade e maiores hits. Então, eu entendi o que ele estava falando.

MC: Então, eu realmente devo agradecer Gucci Mane por nós termos trabalhado juntos. Eu acho que inconscientemente ele conseguiu fazer com que você acabasse com essas merdas mainstream.
MW: Quando eu comecei a trabalhar com Gucci, fizemos músicas que levariam 20 e poucos dias para serem feitas em três dias. Ele simplesmente ia para a cabine e mandava um rap sobre a batida que eu fazia. Não havia muito o que pensar, apenas fazíamos. Eu estava acostumado a trabalhar dessa forma. Então, quando ele me disse que eu tinha que levar o meu som para um outro nível, eu fiquei indignado. Mas então, quando ele começou a se destacar e fazer músicas com Mariah Carey, foi que eu percebi o que ele estava tentando fazer. Mas Waka estava me dizendo o contrário, sabe? Waka estava me dizendo que eu precisava voltar a ser o bom e velho Mike Will. A carreira de Waka estava no mesmo nível da carreira de Gucci quando eu os conheci, então eu estava meio que dividido entre os dois. No entando, foi isso que fez meu som ser o que é agora. Um som sujo, mas refinado.

MC: Gente que está sempre ao seu redor sabe muito bem se você tem que evoluir e mudar ou não. Por exemplo, sou de Nashville, e pensam que eu simplesmente joguei minhas origens no lixo…
MW: Eu estava dividido entre os dois, e depois foi mais certo. As pessoas estavam tentando assinar para trabalhar comigo, mas eu tinha a minha própria visão. Eu queria a minha própria empresa de produção de músicas. A EarDrummers surgiu quando eu estava fazendo músicas para o Gucci. Eu tinha cerca de 30 músicas lançadas com ele e cerca de 10 canções com OJ da Juiceman. Eu tinha todas essas músicas minhas tocando por aí, mas eu não estava recebendo um centavo com elas.

MC: Então, pra quem não entende o “Eardrummers” nas músicas do Mike WiLL Made-It… É isso.
MW: Quando eu fui buscar um acordo para lançar minhas músicas, escrevi todas as músicas que eu tinha e o cara simplesmente amassou o papel e jogou no lixo. Ele disse: “Essa merda não passa de gravações de um mixtape”. Daí eu pensei: Como filhos da puta como Lil Jon ou Drumma Boy – produtores os quais eu estava procurando até então – enfrentaram pessoas assim? Então comecei a fazer minha lição de casa e percebi que esses caras tinham equipes. Eu tinha amigos com os quais fiz música por diversão, mas então eu logo vi que precisava começar a minha própria equipe. Eu queria que a EarDrummers fosse uma equipe cheia de compositores e produtores, com um som de outro nível. Sempre um passo à frente. Criadores de tendências. Tudo começou com apenas eu e A Plus, meu mano. Ele fazia suas batidas e eu fazia as minhas. Então, eu queria aumentar essa equipe. Meu mano, Pnazty, que é foda pra caralho fazendo música, foi uma peça que faltava para meu quebra-cabeça super corajoso. Pnazty conhecia Marz e trouxe-o para a equipe e, em seguida, todos nós iniciamos uma vibe própria e chegamos a esse som atual e ele se tornou peculiar. Um monte de rappers nem sabia como escrever músicas para as nossas batidas. Um monte de rappers achou nossas batidas muito estranhas. Mas foi aí que Gucci e eu voltamos ao estúdio. Até mesmo Future me disse, no começo, que ele não entendia o nosso som. Nosso som sempre foi pegajoso e distorcido e, em seguida, veio um novo som com influências de Atlanta, bem underground. Foi quando passou a ser mais valorizado, e foi parar no radar de Kanye West.

Eu me formei no ensino médio em 2007 e comecei a ir à Georgia em 2008. Mas em 2010, eu já estava de saco cheio. Eu não tinha amigos na escola. Gostava de sair da aula e ir direto para o estúdio. Eu ia para a escola pelo meu pai, porque minhas duas irmãs se formaram na faculdade. Eu havia aprendido Introdução à Indústria da Música, e foi assim que eu aprendi sobre como funciona tudo isso e como construir a minha própria empresa. Mas, depois de ter terminado a escola, minha vontade era de ir e estar em torno de todos os rappers que todo mundo na minha escola queria conhecer. Eu ainda não tinha dinheiro, por isso, em 2010, eu disse ao meu pai: “Eu não posso comer livros. Eu tenho um foco e é fazer música de verdade nessa porra. Eu tenho minha meta e vou cumpri-la.” Ele basicamente disse: “Foda-se, você tem que ir para a escola.” Então, ao invés de ficar indeciso, eu simplesmente desliguei meu telefone e, no semestre seguinte, em 2011, eu não me inscrevi para nenhuma faculdade. Naquela época, “Dirty Sprite” [com Future] saiu, e, em seguida, “La La” [com 2 Chainz e Busta Ryhmes] e, em seguida, “Tupac Back” [com Meek Mill e Rick Ross]. Essa foi a minha primeira canção nas paradas da Billboard. Então meu pai disse: “Ah, merda, eu acho que você estava certo.” Em seguida, a partir daí, eu lancei meu primeiro mixtape, e depois disso, Kanye West me ligou diretamente de Nova York em 2012. Ele me estendeu a mão e me levou para lá, numa viagem que deveria ser de dois dias, mas se transformou em dois meses. Ele me deixou ouvir “Mercy“, antes de acrescentar o som de uma bateria. Ele incluiu a bateria à música bem rápido, sem imaginar que seria um enorme sucesso como foi. Quando eu estava trabalhando com Kanye, “No Lie“, de 2 Chaiz, foi lançada. Essa música foi meio que meu primeiro hit. Foi estranho quando eu conheci Kanye. Eu pensei que ele diria algo como: “Que merda de produtor é esse?” Mas quando entrei na sala, ele disse: “Já era hora de um produtor como você aparecer e trazer esse som inovador. Tudo que você precisa é de uma voz bem em cima da sua batida. Você tem o potencial de mudar a música.” Então nós simplesmente começamos a trabalhar juntos. Em 2012, “Turn On the Lights” [com Future] e “Bandz A Make Her Dance” [com Juicy J, 2 Chainz e Lil Wayne] já eram singles.

MC: E foi assim que eu descobri Mike Will. Eu nunca vou esquecer a batida “foda-se” que você fez no saguão do Greenwich Hotel. Eu estava nas alturas com meus fones de ouvido. Então, nos conhecemos pouco depois disso, em 2013. Mas isso é rápido para você. Uma vez que você estourou, foi tudo bem rápido.
MW: Eu costumava ir aos clubes de strip, em Atlanta, ia para a cabine do DJ, pegava o microfone e dizia “Pare a música, eu tenho alguma música nova com Juicy, 2 Chainz, e Lil Wayne.” Então todo mundo ia a loucura. Eu tive que ouvir diretores dos programas dizendo que não deu certo na rádio e que a música era apenas legal, mas eu continuei insistindo e essa merda deu certo. Depois disso, eu fui capaz de me encontrar com qualquer selo (gravadora) e dizer-lhes que eu tinha todo tipo de som e poderia trabalhar com qualquer tipo de artista. Depois de “Bandz” foi quando eu comecei a trabalhar com Wayne. Ele tinha acabado de sair da prisão. Eu tinha “Love Me” gravada no meu celular e estava no estúdio com Drake e Future. Era uma espécie de vibe estranha porque Future e eu tínhamos as nossas coisas. Eu disse para Drake ouvir o que o Future estava fazendo e ele disse “Ei, bro, eu acho que você deveria dizer alguma merda tipo… as long as my bitches love me’”. Eu sabia que eu queria ambos na música, então Future entrou e mandou logo um “I got some good kush and alcohol.” Drake foi e deu sua parte e eu só tinha esses trechos por um longo tempo. Future estava prestes a colocá-la em seu mixtape, e eu disse “Você tem que falar com o Lil Wayne para que ele possa lançá-la como single”.

Quando eu estava trabalhando em “We Can’t Stop”, eu ficada dizendo “Porra, essa merda é a próxima Party In The U.S.A. e porra, se eu estou repetindo tanto essa merda, por que eu não ofereço ela para Miley Cyrus?”. Então eu disse para o meu empresário “Eu preciso estar em um estúdio com Miley Cyrus”. Ele disse: “Eu não sei se a Miley Cyrus está mesmo fazendo música no momento”. Então eu disse “Eu não dou a mínima, se ela ouvir essa música, ela vai passar a fazer música”. Então fui para Nova York para me reunir com diferentes gravadoras. Minha última reunião de um dia frio foi com a RCA, e até o momento eu não sabia com qual gravadora Miley Cyrus havia assinado. Selos sequer significavam alguma coisa para mim nesse ponto. Então eu fui e toquei várias músicas e quando eu mostrei “We Can’t Stop” eu disse “Essa música é um estrondo da porra. Eu não sei sobre vocês, mas essa merda está pronta para ser lançada”. Peter Edge disse: “Isso vai combinar com Miley Cyrus”. Eu fiquei atordoado. Eu disse “Isso aí cara, nós estamos em sintonia”. Então mostrei-lhe minha mensagem de uma semana atrás que mandei para minha equipe à procura de Miley fuckin’ Cyrus. A partir daí, nos colocaram no estúdio e eu achei que talvez fosse a única música que nós faríamos, mas então eu toquei “23” para você e você entrou em sintonia com aquilo. Então nós encerramos por aí, primeiro dia. Depois que trabalhamos, eu disse “Miley é legal pra caralho, cara. Você tem que continuar nos colocando no estúdio, porque eu acho que poderemos conseguir algo foda”.

MC: E eu estava bem intensa com o Pharrell na época.
MW: Eu tenho todo um catálogo de merdinhas do pop,  gente com medo. Você não tem medo de tentar nada. Então vamos apenas continuar. Mesmo com We Can’t Stop, que foi a nossa primeira vez trabalhando, muitos produtores querem que o artista chegue e soe exatamente como a demonstração da música, mas você tem sotaque country, cara, então eu só queria que você fizesse a coisa do seu jeito. Esse foi apenas o começo. Nós fizemos história.

MC: Muitos patrões para poucos empregados!
MW: Você não pode ter qualquer um no seu meio. Você precisa de uma comunicação direta. Falar sobre ideias e manter as batidas para que você possa ir bem a qualquer hora e em qualquer estado. Bangerz foi a nossa garantia para chamar a atenção, para fazer todo mundo falar e ter alguns hits garantidos. Eu tocava as batidas para algumas pessoas e elas diziam que eram um estilo muito diferente para seu álbum, e eu dizia “apenas deixe-nos trabalhar”. Eu acho que a coisa toda comigo é que eu represento o mal compreendido. Eu sou um filho da puta mal compreendido. Sabe a maneira mais fácil de se pensar, cara? Eu sempre vou pelo contrário disso. Ninguém entende por que eu faço o que eu faço até ver o material pronto, ou no topo das paradas.

O disco de estreia de Mike WiLL Made-It será lançado no final desse ano através da Ear Drummer/Interscope Records.